terça-feira, 22 de maio de 2012

Cotidiano 2043


Olhava-se frente ao espelho. De um lado, tinha o nariz redondo, do outro, tinha o nariz arrebitado, era  torto mas considerava sua aparencia justa diante das ranhuras e mazelas do tempo sob seu corpo.
Pelo reflexo do espelho via sua mulher na sala de estar, tricotava sob tragadas generosas do cigarro long size  em movimentos que pareciam uma espécie de transe, toda vez que a vía daquela forma lembraça da figura de sua avó, porém, sob aspecto menos decadente, os tempos daquela modernidade haviam consumido a beleza sua beleza natural e a transformado em um autêntico produto de seu tempo, somam-se sobrancelhas artificiais, cabelos descoloridos e secos, um vestido apertado que espalhava sua gordura para fora da blusa e traço vulgar de seu andar, sua obseção por saltos altos já lhe havia garantido duas cirurgias nos joelhos. Ele a amava mesmo assim e por inúmeras vezes se prendia a este pensamento.
Naquele momento, fazia sua barba, entre os movimentos de lâmina, olhares de espelhos teve um momento de iluminação, na veradade havia chegado a uma grande decisão, alí do banheiro bebericando uma cerveja quente e perguntou a ela:
- Mulher, o cachorro ainda está lá fora?
Ela pigarreou, mirou a escarradeira ao chão, cuspiou fazendo o cobre retinir.
- Não sei, você fechou a porta?
- Não sei... - coçou a barriga. - Não me lembro.
A mulher emitiu um gemido rouco e voltou a labuta.
O ventilador girava numa velocidade preguiçosa enquanto o rádio tocava ainda inundava a sala com um antigo jazz, a música trazia a sua mente novos pensamentos.
Caminhou em direção a janela da sala, olhado para fora, enxugava-se numa toalha suja.
- Mulher, sabe de uma coisa?
- Hm - gemeu ela.
- Preciso escrever algo.
Ela parou de tricotar, olhou por cima do óculos e o encarou: - Escrever? Tudo bem, pois então escreva.
- É... Sabe, não é apenas escrever por escrever, é um trabalho extenso.
- Extenso... - resmungava ela. Sempre com a mania de repetir as últimas palavra da conversa.
- Sim, extenso, só que preciso de um tempo de confinamento, entende?
- Confinar... - repetia ela como se fosse um eco rouco. - E que tipo de confinamento é esse? Para escrever suas memórias?
- Não exatamente, são alguns ensaios em princípio. Tenho tido sonhos, sabe?
- Sonhos... Agora que está velho? - Roncava sua voz.
- Não, não são sonhos de vida, são sonhos noturnos e profundos!
- Profundos ahn... Bom, sabe que isso representa um risco.
- Sim, sei sim! Renúncias, mentiras, acobertamentos e omissões... No fundo, já temos idade para isso e eu estou pronto.
- Isso significa que estou envolvida de certa forma.
Ele a encarou placidamente, ela levou a mão ao bolso, olhava pela janela em direção ao prédio da frente, tirou outro cigarro, acendeu, tragou profundamente. - Tudo bem... Eu topo.
- Eu te amo meu amor! - Terminou de se enxugar deu um beijo na mulher foi tomar um banho.

Na semana seguinte apenas ela apareceu na reunião de condomínio, não era qualquer condomínio e não era qualquer reunião, era um prédio vertical, uma arcologia de concreto e aço com uma enorme cúpula de vidro com ruas e carros voadores.
A vida dentro daquele lugar gigantesco parecia ser como numa metrópole qualquer por suas redes de informações, aparelhos portáteis e  artificialidade que impulsionavam o desejo das pessoas. Todos estavam conectados e buscavam relevância, era possível apontar o celular e ler o profile do outro indivíduo por meio de uma realidade aumetada surgida na tela.
A falta do maestro fez-se sentida principalmente na abertura da última reunião anual dos condôminos da ala 7, não que sua abertura e músicos fossem lembrados em outras solenidades como parte principal mas naquele dia, as pessoas, sentiram sua falta.
O maestro e sua orquestra sempre abria o cerimonial como parte da solenidade. Naquele dia não houve substituto, apenas sua esposa que subiu podendo ser o centro das atenções, viu que alí ouvia claramente o borburinho e o comentários vindos debaixo do pulpito além da orquestra atrás. Com sinais o contra regra pediu que apagassem as luzes e ascendesesm os holofotes para ela.
Seu traje, uma calça vinil justa, evidenciava a decadência da moda que escolhera para parar no tempo, um colete fluorescente realçava o decote e a gordura que escapava em cima do sinto, ela, iniciou o discurso:
- Boa noite meus queridos! - Fez-se silêncio. - Estou aqui para representar meu marido, finad... - pigarreou, cuspiu na borda da tuba de um músico fazendo o retenir - ...digo, digo, meu doente marido e mestre de abertura da cerimônia Mestre Linus Invictus.
- O que houve com ele? - Gritou uma voz da platéia em meio a escuridão.
- Ele se sentiu mal, logo após o almoço.
- E não foi ver um médico? - Gritou outra voz.
- Não, não foi algo sério, garanto. Foi apenas uma indisposição pós almoço.
O borburinho começou a aumentar, ela levantou as mãos pedindo a última palavra. Algúem da banda gritou:
- Por que ele não nos avisou a tarde pela Rede?
A mulher ficou impaciente: - Oras! Ele foi se deitar após a má sensação. Como poderia pensar em escrever algo ou concentrar-se? - O silêncio foi cortado por um som rasgando na platéia, alguém havia soltado um pum. - Por isso, vim aqui em seu nome pedir-lhes que comecem a reunião sem ele, é o últi.... digo, era o que ele havia me pedido e que tocassem algo menos formal.
- Oh! Menos formal? - disse o violinista - Como se desfazer de toda pompa assim de improviso? - Repetia para si mesmo. - Tocar algo menos formal? Ele deve estar tendo delírios. - A orquesta estava de luto, os músicos tinham seus olhos molhados, todos haviam sentido.
Ela agradeceu, despediu-se e abanando os braços deu sua representação por encerrado sua participação naquele momento.
O flautista levantou-se e pediu sugeriu:
- Pois então toquemos algo alegre e que respeite as boas maneiras deste momento!
- Certamente! - Respondeu os companheiro ao lado.

Em casa, ele foi até a porta, abriu-a e encontrou o cachorro, sorriu, colocou para dentro em meio a latidos de felicidade do canino. - Oh! Ho ho! - Dizia ao cachorro. - Obrigado pela companhia.Colocou a comida em sua vazilha e subiu pelos estreitos degraus até seu quarto carregando toalhas, roupas e uma cafeteira.
Passados algumas semanas ele saiu do recôndito com um grande maço de folhas escritas debaixo do braço e arratando um cobertor. Sua esposa estava na sala como de costume tricotando uma roupa para o cachorro quando ouviu os passos e a figura de seu marido descendo as escadas sob longas barbas, olheiras profundas e uma tez séria.
- Olá! - Fez ela, tragando seu cigarro profundamente. - Terminou?
- Sim! - Olhava para o horizonte como se estivesse contemplando uma enorme paisagem.
- Conseguiu? - Pigarrou, cuspiu na escarradeira.
- Sim! Consegui.
Ela o encarava sob os óculos vendo o com os papéis a mão. - Está feito?
Não houve tempo para a resposta, naquele momento a campainha soou, eles se encararam, ela falou baixinho, movendo os lábios: - São eles! - Seus olhos correram rapidamente em direção a porta, ele soltou os papéis no chão e correu em direção ao quarto parando apenas no último degrau e dando o último recado a mulher: - Esteja pronta meu amor! - Ela fez sinal como se o tocasse embora e seguiu em direção a porta.
- Olá madame. - Era o violonista da orquestra.
- Sim? - Encarava-o sob os óculos e olhar sério. Viu que logo atrás dele estava mais um grupo de homens e ao que pareceu eram todos companheiros de música.
- Viemos cumprir nossa palavra, queremos seaber a quantas anda o senhor seu maestro Linus Invictus.
- Ele está bem, deitado e descansando. - Fez como se fosse fechar a porta na cara deles.
- Poderíamos entrar para vê-lo? - Perguntou o trompetista.
A parta se fechou, eles se entre olharam com seus aparelhos comunicadores a mão e ela abriu a porta novamente.
- Vamos, entrem. Ele está lá em cima. - Apontou com a cabeça.
Entraram como se investigassem cada canto do local. - É por alí. - Indicava sua esposa.
No quarto, ele estava atrás da porta, cuidando para que não pegassem seu espéctro com o dito comunicador.
 - Maestro Linus? - Dizia o violista. Ouvindo apenas uma tosse seca.
- Pois nã.... Rhhcoff - Cof - Cof! - O quê?
- Somos nós maestro Linus! Seus músicos!
- Oh sim! - Cof Cof. Como vão nobres amigos?
- Viemos ver o senhor! Todos estão apreensivos depois da última reunião que o senhor... - foi interrompido.
- Eu sei, eu sei, não estava lá. Cof Cof....
- O senhor viu um médico, precisa de algo? - Perguntou o trompetista.
- Não, não! Está tudo bem! Cof Cof Cof Não se preocupe.
Os músicos estavam tensos, apertavam o comunicador nas mãos e chapéu contra o peito. - Mas... Queremos ver o senhor. - A voz era quase apelativa.
- Já disse que estou deitado e... Cof Cof me recuperando, não quero ver ninguém.
Os músicos se entre olharam novamente. - Bom, só queríamos desejar bons fluídos e que volte para ensaiar conosco o quanto antes, não temos ninguém com o brilhantismo do senh... - foi interrompindo novamente.
- Eu sei, com meu brilhantismo, obrig... Cof Cof.
O violista olhou para trás: - Bom pessoal... - Balançou os ombros desapontado - Vamos embora, ele não quer nos ver.
Desceram as escadas, passaram pela sua esposa que estava calmamente colocando comida para o cachorro - Até mais minha senhora!
- Hmm - Murmurou ela e saíram.
O violinista comentou com o trombonista: - Não é estranho?
- O quê? - disse o músico.
- Oras, eles aí. Sem ninguém mais responsável, parece que nem se preocupam... - o flautista interrompeu completando.
- Vocês viram que havia algo estranho?
- O quê? - Disse Carlos.
- Havia um monte de papéis pelo chão quando entramos e quando saímos, tudo estava arrumado!
- Bobagem! - Disse o fagotista.
O trompestista e o flautista se entre olharam: - Seria o testamento do maestro? - disse o flautista.
- Parem com isso! - disse o violinista ainda com o olhar decepcionado - ele apenas quer ficar sozinho, estava tossindo como um cachorro engasgado não viram?
- Não! Não vimos nadar. - Disse o flautista. - Pareceu que quiz nos evitar.
- E aquela mulher dele, com todo respeito é muito suspeita! - Complementou o trompetista.
- Bobagem... - dizia o violinista - Bobagem... Parem com isso, nosso maestro Linus Invictus é de uma confiança ilibável! Um homem de caracter indelével. Vocês é que são suspeitos por não respeitarem este momento de convalescencia.
Seguiram ala a fora, voltando pelo caminho vieram.

Ainda sim, nas semanas de isolamento e após aquela primeira visita dos músicos, o maestro retornou algumas menssagem, ligações e outros contatos de modo que boa parte do tempo dedicava-se ao seu próposito de escrever suas memórias. Sua mulher fazia toda a acessoria, dava notícias, publicava fotos em seu profile, manipualva prescrições médicas e chamava a questão para ostracismo de músicos como o seu marido e como este tipo de situação expunha as chagas sociais de que eram vítimas.
As matérias e notícias ganhavam repercursão por toda ala 7. Deu-se início a um grande assédio na porta do músico. Sua esposa, para onde fosse, era parada nos lugares para responder perguntas do tipo "Como vai o maestro?", "Já se faz melhor nosso condutor?", "O que o médico disse?" entre outras perguntas que só aumentavam os comentários e prol de sua doença.
De alguma forma, viram suas vidas se transformando, o embuste havia criado um clima de atenção sobre a figura do músico que até então havia vivido décadas no anonimato e dinheiro contado. Nunca imaginou que seu isolamento lhe renderia tantos interesses e oportunidades. Via sua conta bancária subir a cada dia, doações de toda a arcologia chegava a fim dar um fim digno a aquela pobre situação.
Diariamente recebia em sua porta anônimos que queriam vê-lo e ouví-lo. Recebia condolências de várias formas, virtuais e pessoais enviados até por autoridades locais.
Com o dever de manter tudo as escondidas sua mulher arquitetava um plano minusioso para manter o músico não muito perto da massa, coisa que estava ficando cada vez mais complicada. Tinha que estudar sua rotina diariamente para não ser surpreendida com as mesmas perguntas e assédio dos fãs, palavra que soava estranho para ambos.
Certa noite, olhando-se no espelho, contemplava seu corpo, praticamente sem nenhum traço de juventude, via as marcas, dobras e excessos, pareceu olhar-se verdadeiramente após muitos anos e reconheceu que seu manequim havia mudado há muito tempo.
Passou a mudar algumas peças e assistir programas infantis sobre moda adulta, tão em alta em sua época, até foi convidada por Miquele D'nev, o jovem transexual que queria ouvir sua história de perto e expor o bullying que músicos de sua idade sofriam. Aprveitou a chance e lançou a data da aparição pública de seu marido e revelando em primeira mão que ele, Linus Invictus estaria lançando suas memórias "Linus: ascenção, decadência e iluminação" escrito em um período difícil.
No camarim, o jovem transexaul pediu a sua produção que ficasse um tempo com ela:
- A senhora foi demais! Brilhante, brilhante! Estou tão empolgada com o sucesso do show de hoje que até poderia beijá-la, posso? - Aproximou-se dela sentindo o hálito do tabaco.
- Hm... - Ela deu um passo atrás e cuspiu em um copo que bebia champagne fazendo o retinir - Não tenho este hábito pequeno Miquele.
O garoto encarando-a, segurou pelos braços: - Como assim? Ah, pobrezinha, pensei que estive carente só depois de Linus Invictus caiu doente! - Levava as mãos a cabeça. - Ahh! - lamentava ele - Posso dizer outra coisa senhora Linus?
- Hmm. - Respondeu ela.

No dia marcado, quarta-feira, houve grande comoção, o centro de eventos da ala 7 havia parado para ver Linus Invictus que encontrava-se pronto para retornar a orquesta e vencer de vez sua doença.
Sua chegada havia sido um tanto quanto tumultuada. Todos queriam vê-lo e saber de seu estado, sua imagem, barbas longas e olheras profundas. Uma foto tirada por sua esposa em dias de trabalho intenso, havia sido divulgada e estava em todo lugar como numa espécie de corrente e símbolo popular.
Linus havia se preparado, aparado a barba, caprichado no perfume e poucos minutos do grnade momento.
- Me dê um beijo amor.
- Claro! - Respondeu ela.
Ele não havia percebido, após muitos anos de convivência sua mulher não respondeu com um gemido de concordância.
As dezenove horas, subiu ao pulpito e anunciou seu retorno a orquestra e a vida pública de músico. Usou boa parte do seu tempo expondo seu período de doença e isolamento e anunciando a pré-veda de seu maior projeto, finalizado durante seu período em que esteve longe do público.
A comoção era notável. Sua esposa, atrás das curtinas, estava muito diferente do que costumava ser, tinha o cabelo liso, preto, sem os óculos e estava emagrendo. Havia passado por um cirurgião gastroplastico na semana seguinte a aparição do show de Miquele D'nev. Antes de ver o discurso terminado, saiu e foi comprar algo especial para celebrar aquele momento e desta vez não precisou de disfarce. Dirigiu-se a uma cafeteria próxima ao auditório para comprar grãos de café com chantili, o preferido de Linus, aproveitou e pediu uma bebida, acompanhando o marido pela tela de projeção ía acender um cigarro quando encarou seu reflexo no espelho. Próxima a ela, havia um casal de jovens com roupas descoladas que reclamavam em voz alta, irritados, ela não deu atenção até ouvir o nome do seu marido:
- Linus blá-blá-blá! Que idiota! - Dizia o jovem de cabelo verdes arrepiados.
- É... Também odeio esses draminhas fabricados. - Acrescentou a jovem também de cabelos esquisitos porém laranjas.
- Você sabe que isso é uma grande fraude né? - Voltou a falar o jovem de cabelos verdes.
- É uma grande patifaria, não sei por que não prendem esses otários.
- Não não, você não entendeu. No final de semana vão exibir um vídeo naquele programa de denúncias anônimas desmascarando o babaca.
Ao ouvir aquilo, sua espinha havia congelado. Amaçou o cigarro e foi em direção em mesa dos jovem, pegou o de cabelo verde pelo colarinho e ralhou-o:
- Não tem nada de falso nisso! É tudo pura verdade! - Fechou a boca puxando o mais profundo da saliva empapada na gargante e cuspiu no copo de refrigerante do garoto, desta vez não retiniu.

No caminho de volta, dentro do carro, estava nervosa e inquieta. Abria e fechava as mão incontrolavelmnte.
- Amor, o que achou? - Dizia Linus com um ar aliviado.
- Bom... Excelente! - respondeu ela laconicamente - Todos te ouviram não?
- Sim, sabem que será um grande lançamento! As editoras estão alvoroçadas com o livro! Vários agentes quiseram saber das próximas publicações. Acredito que estou conseguindo o que queria, sabe?
- Sei, sim, sei que está conseguindo mas se não agirmos rápido, tudo será colocado abaixo.
Ele ficou em silêncio. Chegando próximo a seu apartamento comentou: - Querida, posso dizer uma coisa? - Ela não disse nada. - Percebi que está mudada ultimamente, até sua voz mudou. - Deu início a um monólogo. - Não falei mas sabe, todos estes anos, trabalhando pela sobrevivência apenas ví que hoje sou prestigiado, as coisas realmente mudaram, incluindo você... Está perfumada, não cospe mais pela sala e tampouco está fumando, não sei o que fez mas está magra, sinto-me até sem jeito as vezes, olho para o lado e vejo outra pessoa - Ela permanecia em silêncio. - Sabe, preciso ser extremamente sincero, após hoje, sinto que não quero mais morrer. Sinto que fiz algo por nós, pela orquestra, pelos músicos, aquela sua aparição de Michele D'nev... Enfim... tudo está relacionado.
Ela o olhava pelo canto dos olhos sem falar nada, mantendo a inquietação.
- Linus, vamos para casa. - Completou ela ignorando a emoção do marido.
- O quê? - Dizia ele ainda embriagado pelo momento. - Quero comemorar meu bem!
- Não há o que comemorar agora Linus. Estão nos filmando. - Disse séria.
- Isto não é ótimo? - Abriu a janela e começou a dar tchauzinhos a esmo.
Em um ímpeto, ela o empurrou para dentro, foi a primeira vez que Linus se sentiu verdadeiramente ultrajado pela mulher, ela jamais havia tido atitudes tão agressivas, olhou seu rosto pelo retrovisor, a alegria não andava começa a se deteriorar.

- Amor, reparou que as janelas estão mais escuras? Parece que colocaram um filme em nossas janelas. - Ela não o ouviu, irrompeu irritada.
- Ah! Jornalistas do inferno!
- O que foi meu bem? - Disse Linus.
- Aqui está! - Jogou o tablet em sua frente com a manchete principal estampada: Linus Invictus, a nova celebridade farçante! - Era uma descrição completa de todo plano arquitetado por ele e sua esposa.
- Ora! Como? - Dizia ele não entender.
- Linus, você não viu isso também. - Mostrou em um clique o programa que foi ao ar onde haviam filmado suas semanas de reclusão e suposta doença onde bebia, ria e caminhava nú.
- Ora, ora, ora! Quem fez isso meu amor?
Ela se dirigiu a ele como se medisse dois metros de altura, estava sensual, alta, magra, de saltos e imponente. - Você fez isso seu monte de merda! - Agarrou-o pelo pescoço e lançou pela porta, Linus se desiquilibrou e saiu em direção as escadas, não viu o cachorro no primeiro degrau, pisou em seu rabo que revidou-lhe uma mordida e o fez rolar escada abaixo.
Estatelado no chão, se contorcia enquanto ouvia a esposa falar ao telefone, não conseguia identificar com quem ela brigava, talvez o advogado, um jornalista, não sabia ao certo, ouviu os passos de sua mulher descendo a escada.
- É isso que você queria? - Chutou nas costas.
Linus, chorava, gemia e em sua cabeça nada daquilo fazia sentido.
O telefone tocou novamente, sua esposa atendeu, começou a chorar e segiu para a porta como se esperasse alguém, eram os enfermeiros seguidos de dois homens que filmaram toda a situação.
Ela o viu ser amarrado a uma maca, imobilizado, sob sons de soluços e lágrimas que derramava em frente as câmeras, ele foi levado.

As vendas de "Linus: ascenção, decadência e iluminação" estavam em alta, batendo o recorde de permanência em primeiro lugar na categoria de 1o livro de não ficção mais incrível. A esposa de Linus, cuidou que ele permanecesse em coma por vários meses a fio a fim de refutar todo o embuste e dizer que o seu quadro era de recaída, desta vez com câmeras em seu quarto 24 horas, exceto quando os médicos vinham lhe ver.
Convidada novamete ao programa de Michele D'nev pode mostrar a nova casa e decoração que havia adquirido, agradeceu aos patrocinadores, falou dos escritos deixado pelo marido e como tudo aquilo era aterrorizante, não se via sem o marido e sua música para as pessoa principalmente da ala 9. Não pode deixar de ser notícia novamente quando no camarim de Michele D'nev foi pega com meninos na banheira. Fato que negou horas depois dizendo ser armação de paparazzis.
No dia que Linus saiu do coma, estava em uma sala requintada, sem janelas mas bem iluminada por luzes naturais, havia uma mesa, cadeira confortável, computador, papéis, tudo o que necessitava para escrever, chamou pela mulher.
Ela entrou no quarto serenamente.
- Amor, conseguimos? - Perguntou ele afônico.
- Sim meu amor, conseguimos.
- Então, agora eu posso voltar a escrever?
- Sim pode, aqui será seu lugar até o fim de sua vida.
- Oh, não poderei mais sair?
- Não... - Lamentou ela com lágrimas nos olhos.
- Então, fui dado como morto oficialmente?
- Sim... foi. - Dizia ela em soluços.
- Eu te amo. - Disse ele.
- Também te amo Linus. - Chorou borrando a maquiagem. - Sempre te amarei mas você sabe o que precisa fazer.
- Escrever amor, escrever...



domingo, 29 de abril de 2012

Fast Food 2

Alimentar-se em transito era uma das coisas que mais detestava. Sempre que precisava ia até uma lanchonete conhecida ou cafeteria com uma cara digna e comprava algo. Infelizmente naquele dia passava por uma cidade onde via claros sinais de disparidade entre o tamanho da cidade e o terminal rodoviário que havia desembarcado, desconfiava estar sob um grande elefante branco porém confortável, sentimento que o fazia minimizar sua indignação política.
- Olá bom dia moça - ela não respondeu - Tem chá batido?
- Não estamos atendendo. - Respondeu a mocinha antipática apesar de sua beleza física.
- Ah não? E por quê?
- Troca de turno...
Pegou sua bagagem do chão foi até o caixa.
- Ei, escuta, quanto tempo para me atender? - Insistiu.
- Já não disse? Troca de turno. Se quiser espera uns 20 minutos.
- Mas nem uma garrafa d'água podem me vender? É só pegar na geladeira. Tá bem aí atrás de você.
- Não tem atendimento, ouviu bem? - Olhou com raiva para ele e deu as costas.
Não entendia, só queria um produto que estava no catálogo, sentia-se culpado por ter tido uma recepção tão grosseira e sem motivos. Enquanto isso a mocinha estava entretida no celular, havia outras duas limpando atrás do balcão conversando sobre a novela do horário nobre.
Olhou no bilhete, viu o horário de seu embarque e conferiu no seu relógio, tinha ainda bons 50 minutos até a partida.
Arrastando suas bagagens se dirigiu para a outra extremidade do terminal onde havia a mesma franquia só que uma loja maior, curiosamente notou que não havia nenhuma outra loja do mesmo serviço no recinto, internamente havia confirmado, estava sob um belo elefante branco de contratos marcados.
- Ei! Ptzzz! Mocinha, pode me vender um chá batido? - Ninguém do outro lado do balcão para responder.
Saiu da fila, coçou a cabeça, mais pessoas chegavam para embarcar e uma pequena fila se formou em frente aquela  lanchonete, decidiu voltar nela e tentar mais uma vez.
- Difícil aqui né? - Comentou com uma adolescente de fones de ouvido atrás dele.
- Ah? - Reagiu ela tirando os fones de ouvido.
- É difícil o serviço de lanchonete aqui neste terminal.
- Ah é... - fez ela girando os olhos e voltando para sua bolha.
- Tá quente né? - Imaginou que ela o deveria achar um grande tarado.
A menina nem deu resposta, colocou seus óculos de sol.
Via que um a um ia saindo da fila. Chegou novamente a frente da atendente:
- Um chá batido, por favor.
- Não estamos atendendo. - A expressão de deboche estava estampada na cara da atendente.
- Também não? Não vai me dizer que vocês também estão trocando de turno?
- Isso mesmo. Troca de turno.
- Por quê? Eu só quero uma coisa que tá no menu!
- Só daqui a vinte minutos.
Olhou para o relógio, haviam se passado os 20 minutos do outro quiosque.
Lamentou profundamente o dia, o serviço, a cidade e aquele local.
Saiu da fila, andou até o ônibus que havia encostado para embarcar as malas, colocou sua bagagem no compartimento, pegou o recibo, olhou novamente para o relógio, ainda lhe restava 10 minutos. Voltou a lanchonete, a fila estava menor, dava tempo para tentar mais uma vez.
 - Pois não? - Disse a atendente.
- Chá batido! - Foi na lata, tinha o cardápio em mãos.
- Não tem!
- Tem sim! Tá aqui! - Mostrou no cardápio.
- Não tem senhor, só de lata.
- Ahhhh, eu não quero de lata! - Respirou fundo - Ah, me dá duas garrafas de água então.
A atendente foi até a geladeira a dois passos atrás dela e entregou a ele. - São oito reais.
- Oito reais por duas garrafinhas? - Pegou uma das garrafas, observou. - Ainda por cima desta marca vagabunda?
- Oito reais e só no dinheiro. - repetiu ela friamente.
Podia sentir o sangue subindo-lhe a cabeça, o relógio apontava 3 minutos para o desembarque, ouvia o motorista acelerando como se fosse uma espécie de última chamada, via a fila do embarque aumentar. Sentia a pressão do momento, suava de nervoso.
- Dinheiro? Eu não tenho dinheiro!
A atendente ignorou o comentário, protestou: - Então me devolva.
Em cima do balcão havia uma pequena placa para onde apontava - Aqui diz que vocês aceitam todo tipo de cartão e vários tickets! Esses sim eu tenho! - Sua expressão era de transtorno raivoso.
- O sistema está fora do ar senhor, sem previsão de volta.
- Ahhh! - Bateu as garrafas no balcão de modo que a fez esmagar e arrebentarem, lavando o monitor do caixa. - Eu quero que vocês explodam!
- Senhor! Senhor! Não estamos aceitamos cartões no momento, entenda! - Dizia a atendente indignada com a reação.
- Ah idiota, idiota! - Girava as mãos esbaforido. - Como vocês só aceitam dinheiro num lugar destes? Eu deveria saber! Maldito elefante branco! Maldito! Ahhh! - Pulou o balcão e começou a chutar a geladeira de onde havia duzias de garrafa d'água.
A baixaria foi instaurada, a atendente começou a chamar pela sua amiga.
- Cleonice! Cleonice! Vem aqui! Cleonice!
A mulher apareceu da cozinha com uma panela na mão, parecia que a estava lavando, foi para cima dele tentando contê-lo, a geladeira havia sido derrubada, ele gritava para a torneira.
- Onde está o chá? Onde está o chá?
Cleonice foi para cima dele com a panela. A fila acompanhava sem reação. Alguns saíam para pegar suas máquinas fotográficas e celulares para filmar.
Fora de si, o homem tomou a panela das mãos de Cleonice tentando se esquivar do ataque e revidou.
Deu-lhe no queixo tombando-a imediatamente, em seguida, deu na geladeira deitada, deu no monitor, no monte de cardápios e por fim nas costas da atendente que o debochara.
Pulou o balão gritando por chá enquanto alguns seguranças vinham em sua direção, girou a panela na mão e a arremeçou em direção ao segurança que estava há alguns passos dele, tombou este também.
Correu para o ônibus segundos antes da porta se fechar, jogou o bilhete nas mãos do motorista que mal conferiu os dados, ele mal havia percebido a confusão, as luzes de seu painel simplesmente ofuscava a luminosidade externa.

Respirando profundamente, o homem havia sentado ao lado de uma senhora que ignorava sua presença. Sentindo sua camisa encharcada sob o ar condicionado intenso murmurava "Que explodam, que explodam!  Não vou reclamar."
Sentia a adrenalina baixar, tinha sede e aos poucos seu olhar se perdeu no horizonte, a paisagem ia anestesiando ao ponto de notar que havia urinado na poltrona.
O motorista percebeu que alguns homens se jogavam no caminho do ônibus acenando alguma coisa que não queria prestar atenção, um deles chegou até a bater pela lateral.
- Droga de vendedores de livros! - Murmurou ele saindo como veículo pelo terminal.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Decadência




Lugares decantes são interessantíssimos, intrigantes, inspiradores, melancólicos e repleto de histórias. Quantas pessoas passaram na última hora pelo mesmo portão de séculos atrás, perto de irem embora o mesmo relógio, a mesma faxada e na última linha entraram no transporte da empresa que anunciaria concordata no dia seguinte.
Lugares decantes são cheios de marcas, pinturas mal executadas, cobertos de tintas de marcas desconhecidas, super faturadas e sob cicatrizes de funcionários públicos que por negligência da administração se acidentaram ocasionalmente nas últimas gestões para alimentarem suas famílias.
Lugares decantes são mal falados e amaldiçoados por criaturas transvestidas de pessoas em trajes políticos mantidos pelos mais esquisitos panos pretos sob um sol de 38 graus em Janeiro ao meio dia.
Lugares decantes são mal cheirosos e descritivos como cabines de banheiros públicos de rodoviária que não cobram pela entrada onde ali outro dia jazia um portador de necessidades especiais que por falta de assistência em suas muletas escorregou,  caiu em uma poça de urina e teve convulsões, não se a poça era sua ou uma mistura de odores dos dez mil quinhentos transeuntes que naquele dia não deram a mínima para a placa "Não jogue papel no chão".
Lugares decantes são nojentos pelas melecas e cusparadas impregnadas por entre os frisos das paredes, pelos buracos de rejunte no chão, incontáveis chichetes debaixo dos bancos e por detrás dos pilares.
Lugares decantes dão medo de esperar o inesperável que pode acontecer a qualquer momento da mesma forma que ocorreu com a notícia policial estampada no jornal preso há mais de 20 anos no mural de vidro trincado protegido em uma sala abandonada sob portões e um cadeado enferrujado.
Lugares decantes escondem sob sua face as injustiças e chagas de uma sociedade adoecida, revelam a ferida cheia de pus das entranhas da cidade e um quadro patológico irreversível.
Lugares decantes são cheios de morbidez e gordura. Desde o china que comprou do italiano que havia sido do português amigo do prefeito após a inauguração do teatro da cidade localizado no mesmo quarteirão da funerária municipal na época considerado um avanço e progresso por mais de 75% da população quando entrevistada.

Outro dia uma pessoa caiu ali em frente da palmeira imperial, plantada pelo fundador da cidade, disseram no hospital que o morto teve intoxicação alimentar mas no fundo, na praça e no ponto de táxi todos sabiam que era o inevitável fim de um vítima que colecionava confusões e sempre tombava por entre os desajustados daquele lugar, os loucos foram embora mas a pobre vítima se juntou as milhões de vidas invisíveis em mais um lugar decadente.
Lugares decadentes são extremamente descritivos.