Olhava-se
frente ao espelho. De um lado, tinha o nariz redondo, do outro, tinha o nariz
arrebitado, era torto mas considerava
sua aparencia justa diante das ranhuras e mazelas do tempo sob seu corpo.
Pelo
reflexo do espelho via sua mulher na sala de estar, tricotava sob tragadas
generosas do cigarro long size em
movimentos que pareciam uma espécie de transe, toda vez que a vía daquela forma
lembraça da figura de sua avó, porém, sob aspecto menos decadente, os tempos
daquela modernidade haviam consumido a beleza sua beleza natural e a
transformado em um autêntico produto de seu tempo, somam-se sobrancelhas
artificiais, cabelos descoloridos e secos, um vestido apertado que espalhava
sua gordura para fora da blusa e traço vulgar de seu andar, sua obseção por
saltos altos já lhe havia garantido duas cirurgias nos joelhos. Ele a amava
mesmo assim e por inúmeras vezes se prendia a este pensamento.
Naquele
momento, fazia sua barba, entre os movimentos de lâmina, olhares de espelhos
teve um momento de iluminação, na veradade havia chegado a uma grande decisão,
alí do banheiro bebericando uma cerveja quente e perguntou a ela:
- Mulher, o
cachorro ainda está lá fora?
Ela
pigarreou, mirou a escarradeira ao chão, cuspiou fazendo o cobre retinir.
- Não sei,
você fechou a porta?
- Não
sei... - coçou a barriga. - Não me lembro.
A mulher
emitiu um gemido rouco e voltou a labuta.
O
ventilador girava numa velocidade preguiçosa enquanto o rádio tocava ainda
inundava a sala com um antigo jazz, a música trazia a sua mente novos
pensamentos.
Caminhou em
direção a janela da sala, olhado para fora, enxugava-se numa toalha suja.
- Mulher,
sabe de uma coisa?
- Hm -
gemeu ela.
- Preciso
escrever algo.
Ela parou
de tricotar, olhou por cima do óculos e o encarou: - Escrever? Tudo bem, pois
então escreva.
- É...
Sabe, não é apenas escrever por escrever, é um trabalho extenso.
-
Extenso... - resmungava ela. Sempre com a mania de repetir as últimas palavra
da conversa.
- Sim,
extenso, só que preciso de um tempo de confinamento, entende?
-
Confinar... - repetia ela como se fosse um eco rouco. - E que tipo de
confinamento é esse? Para escrever suas memórias?
- Não
exatamente, são alguns ensaios em princípio. Tenho tido sonhos, sabe?
- Sonhos...
Agora que está velho? - Roncava sua voz.
- Profundos
ahn... Bom, sabe que isso representa um risco.
- Sim, sei
sim! Renúncias, mentiras, acobertamentos e omissões... No fundo, já temos idade
para isso e eu estou pronto.
- Isso
significa que estou envolvida de certa forma.
Ele a
encarou placidamente, ela levou a mão ao bolso, olhava pela janela em direção
ao prédio da frente, tirou outro cigarro, acendeu, tragou profundamente. - Tudo
bem... Eu topo.
- Eu te amo
meu amor! - Terminou de se enxugar deu um beijo na mulher foi tomar um banho.
Na semana
seguinte apenas ela apareceu na reunião de condomínio, não era qualquer
condomínio e não era qualquer reunião, era um prédio vertical, uma arcologia de
concreto e aço com uma enorme cúpula de vidro com ruas e carros voadores.
A vida
dentro daquele lugar gigantesco parecia ser como numa metrópole qualquer por
suas redes de informações, aparelhos portáteis e artificialidade que impulsionavam o desejo
das pessoas. Todos estavam conectados e buscavam relevância, era possível
apontar o celular e ler o profile do outro indivíduo por meio de uma realidade
aumetada surgida na tela.
A falta do
maestro fez-se sentida principalmente na abertura da última reunião anual dos
condôminos da ala 7, não que sua abertura e músicos fossem lembrados em outras
solenidades como parte principal mas naquele dia, as pessoas, sentiram sua
falta.
O maestro e
sua orquestra sempre abria o cerimonial como parte da solenidade. Naquele dia
não houve substituto, apenas sua esposa que subiu podendo ser o centro das
atenções, viu que alí ouvia claramente o borburinho e o comentários vindos
debaixo do pulpito além da orquestra atrás. Com sinais o contra regra pediu que
apagassem as luzes e ascendesesm os holofotes para ela.
Seu traje,
uma calça vinil justa, evidenciava a decadência da moda que escolhera para
parar no tempo, um colete fluorescente realçava o decote e a gordura que
escapava em cima do sinto, ela, iniciou o discurso:
- Boa noite
meus queridos! - Fez-se silêncio. - Estou aqui para representar meu marido,
finad... - pigarreou, cuspiu na borda da tuba de um músico fazendo o retenir -
...digo, digo, meu doente marido e mestre de abertura da cerimônia Mestre Linus
Invictus.
- O que
houve com ele? - Gritou uma voz da platéia em meio a escuridão.
- Ele se
sentiu mal, logo após o almoço.
- E não foi
ver um médico? - Gritou outra voz.
- Não, não
foi algo sério, garanto. Foi apenas uma indisposição pós almoço.
O
borburinho começou a aumentar, ela levantou as mãos pedindo a última palavra. Algúem
da banda gritou:
- Por que
ele não nos avisou a tarde pela Rede?
A mulher
ficou impaciente: - Oras! Ele foi se deitar após a má sensação. Como poderia
pensar em escrever algo ou concentrar-se? - O silêncio foi cortado por um som
rasgando na platéia, alguém havia soltado um pum. - Por isso, vim aqui em seu
nome pedir-lhes que comecem a reunião sem ele, é o últi.... digo, era o que ele
havia me pedido e que tocassem algo menos formal.
- Oh! Menos
formal? - disse o violinista - Como se desfazer de toda pompa assim de
improviso? - Repetia para si mesmo. - Tocar algo menos formal? Ele deve estar
tendo delírios. - A orquesta estava de luto, os músicos tinham seus olhos
molhados, todos haviam sentido.
Ela
agradeceu, despediu-se e abanando os braços deu sua representação por encerrado
sua participação naquele momento.
O flautista
levantou-se e pediu sugeriu:
- Pois
então toquemos algo alegre e que respeite as boas maneiras deste momento!
-
Certamente! - Respondeu os companheiro ao lado.
Em casa,
ele foi até a porta, abriu-a e encontrou o cachorro, sorriu, colocou para
dentro em meio a latidos de felicidade do canino. - Oh! Ho ho! - Dizia ao
cachorro. - Obrigado pela companhia.Colocou a comida em sua vazilha e subiu
pelos estreitos degraus até seu quarto carregando toalhas, roupas e uma
cafeteira.
Passados
algumas semanas ele saiu do recôndito com um grande maço de folhas escritas
debaixo do braço e arratando um cobertor. Sua esposa estava na sala como de
costume tricotando uma roupa para o cachorro quando ouviu os passos e a figura
de seu marido descendo as escadas sob longas barbas, olheiras profundas e uma
tez séria.
- Olá! -
Fez ela, tragando seu cigarro profundamente. - Terminou?
- Sim! -
Olhava para o horizonte como se estivesse contemplando uma enorme paisagem.
-
Conseguiu? - Pigarrou, cuspiu na escarradeira.
- Sim!
Consegui.
Ela o
encarava sob os óculos vendo o com os papéis a mão. - Está feito?
Não houve
tempo para a resposta, naquele momento a campainha soou, eles se encararam, ela
falou baixinho, movendo os lábios: - São eles! - Seus olhos correram
rapidamente em direção a porta, ele soltou os papéis no chão e correu em
direção ao quarto parando apenas no último degrau e dando o último recado a
mulher: - Esteja pronta meu amor! - Ela fez sinal como se o tocasse embora e
seguiu em direção a porta.
- Olá
madame. - Era o violonista da orquestra.
- Sim? -
Encarava-o sob os óculos e olhar sério. Viu que logo atrás dele estava mais um
grupo de homens e ao que pareceu eram todos companheiros de música.
- Viemos
cumprir nossa palavra, queremos seaber a quantas anda o senhor seu maestro
Linus Invictus.
- Ele está
bem, deitado e descansando. - Fez como se fosse fechar a porta na cara deles.
-
Poderíamos entrar para vê-lo? - Perguntou o trompetista.
A parta se
fechou, eles se entre olharam com seus aparelhos comunicadores a mão e ela
abriu a porta novamente.
- Vamos,
entrem. Ele está lá em cima. - Apontou com a cabeça.
Entraram
como se investigassem cada canto do local. - É por alí. - Indicava sua esposa.
No quarto,
ele estava atrás da porta, cuidando para que não pegassem seu espéctro com o
dito comunicador.
- Maestro
Linus? - Dizia o violista. Ouvindo apenas uma tosse seca.
- Pois
nã.... Rhhcoff - Cof - Cof! - O quê?
- Somos nós
maestro Linus! Seus músicos!
- Oh sim! -
Cof Cof. Como vão nobres amigos?
- Viemos
ver o senhor! Todos estão apreensivos depois da última reunião que o senhor...
- foi interrompido.
- Eu sei,
eu sei, não estava lá. Cof Cof....
- O senhor
viu um médico, precisa de algo? - Perguntou o trompetista.
- Não, não!
Está tudo bem! Cof Cof Cof Não se preocupe.
Os músicos
estavam tensos, apertavam o comunicador nas mãos e chapéu contra o peito. -
Mas... Queremos ver o senhor. - A voz era quase apelativa.
- Já disse
que estou deitado e... Cof Cof me recuperando, não quero ver ninguém.
Os músicos
se entre olharam novamente. - Bom, só queríamos desejar bons fluídos e que
volte para ensaiar conosco o quanto antes, não temos ninguém com o brilhantismo
do senh... - foi interrompindo novamente.
- Eu sei,
com meu brilhantismo, obrig... Cof Cof.
O violista
olhou para trás: - Bom pessoal... - Balançou os ombros desapontado - Vamos
embora, ele não quer nos ver.
Desceram as
escadas, passaram pela sua esposa que estava calmamente colocando comida para o
cachorro - Até mais minha senhora!
- Hmm -
Murmurou ela e saíram.
O
violinista comentou com o trombonista: - Não é estranho?
- O quê? -
disse o músico.
- Oras,
eles aí. Sem ninguém mais responsável, parece que nem se preocupam... - o
flautista interrompeu completando.
- Vocês
viram que havia algo estranho?
- O quê? -
Disse Carlos.
- Havia um
monte de papéis pelo chão quando entramos e quando saímos, tudo estava
arrumado!
- Bobagem!
- Disse o fagotista.
O
trompestista e o flautista se entre olharam: - Seria o testamento do maestro? -
disse o flautista.
- Parem com
isso! - disse o violinista ainda com o olhar decepcionado - ele apenas quer
ficar sozinho, estava tossindo como um cachorro engasgado não viram?
- Não! Não
vimos nadar. - Disse o flautista. - Pareceu que quiz nos evitar.
- E aquela
mulher dele, com todo respeito é muito suspeita! - Complementou o trompetista.
-
Bobagem... - dizia o violinista - Bobagem... Parem com isso, nosso maestro
Linus Invictus é de uma confiança ilibável! Um homem de caracter indelével.
Vocês é que são suspeitos por não respeitarem este momento de convalescencia.
Seguiram
ala a fora, voltando pelo caminho vieram.
Ainda sim,
nas semanas de isolamento e após aquela primeira visita dos músicos, o maestro
retornou algumas menssagem, ligações e outros contatos de modo que boa parte do
tempo dedicava-se ao seu próposito de escrever suas memórias. Sua mulher fazia
toda a acessoria, dava notícias, publicava fotos em seu profile, manipualva
prescrições médicas e chamava a questão para ostracismo de músicos como o seu
marido e como este tipo de situação expunha as chagas sociais de que eram
vítimas.
As matérias
e notícias ganhavam repercursão por toda ala 7. Deu-se início a um grande
assédio na porta do músico. Sua esposa, para onde fosse, era parada nos lugares
para responder perguntas do tipo "Como vai o maestro?", "Já se
faz melhor nosso condutor?", "O que o médico disse?" entre
outras perguntas que só aumentavam os comentários e prol de sua doença.
De alguma
forma, viram suas vidas se transformando, o embuste havia criado um clima de
atenção sobre a figura do músico que até então havia vivido décadas no
anonimato e dinheiro contado. Nunca imaginou que seu isolamento lhe renderia
tantos interesses e oportunidades. Via sua conta bancária subir a cada dia,
doações de toda a arcologia chegava a fim dar um fim digno a aquela pobre
situação.
Diariamente
recebia em sua porta anônimos que queriam vê-lo e ouví-lo. Recebia condolências
de várias formas, virtuais e pessoais enviados até por autoridades locais.
Com o dever
de manter tudo as escondidas sua mulher arquitetava um plano minusioso para
manter o músico não muito perto da massa, coisa que estava ficando cada vez
mais complicada. Tinha que estudar sua rotina diariamente para não ser
surpreendida com as mesmas perguntas e assédio dos fãs, palavra que soava
estranho para ambos.
Certa
noite, olhando-se no espelho, contemplava seu corpo, praticamente sem nenhum
traço de juventude, via as marcas, dobras e excessos, pareceu olhar-se
verdadeiramente após muitos anos e reconheceu que seu manequim havia mudado há
muito tempo.
Passou a
mudar algumas peças e assistir programas infantis sobre moda adulta, tão em
alta em sua época, até foi convidada por Miquele D'nev, o jovem transexual que
queria ouvir sua história de perto e expor o bullying que músicos de sua idade
sofriam. Aprveitou a chance e lançou a data da aparição pública de seu marido e
revelando em primeira mão que ele, Linus Invictus estaria lançando suas
memórias "Linus: ascenção, decadência e iluminação" escrito em um
período difícil.
No camarim,
o jovem transexaul pediu a sua produção que ficasse um tempo com ela:
- A senhora
foi demais! Brilhante, brilhante! Estou tão empolgada com o sucesso do show de
hoje que até poderia beijá-la, posso? - Aproximou-se dela sentindo o hálito do
tabaco.
- Hm... -
Ela deu um passo atrás e cuspiu em um copo que bebia champagne fazendo o
retinir - Não tenho este hábito pequeno Miquele.
O garoto
encarando-a, segurou pelos braços: - Como assim? Ah, pobrezinha, pensei que
estive carente só depois de Linus Invictus caiu doente! - Levava as mãos a
cabeça. - Ahh! - lamentava ele - Posso dizer outra coisa senhora Linus?
- Hmm. -
Respondeu ela.
No dia
marcado, quarta-feira, houve grande comoção, o centro de eventos da ala 7 havia
parado para ver Linus Invictus que encontrava-se pronto para retornar a
orquesta e vencer de vez sua doença.
Sua chegada
havia sido um tanto quanto tumultuada. Todos queriam vê-lo e saber de seu
estado, sua imagem, barbas longas e olheras profundas. Uma foto tirada por sua
esposa em dias de trabalho intenso, havia sido divulgada e estava em todo lugar
como numa espécie de corrente e símbolo popular.
Linus havia
se preparado, aparado a barba, caprichado no perfume e poucos minutos do grnade
momento.
- Me dê um
beijo amor.
- Claro! -
Respondeu ela.
Ele não
havia percebido, após muitos anos de convivência sua mulher não respondeu com
um gemido de concordância.
As dezenove
horas, subiu ao pulpito e anunciou seu retorno a orquestra e a vida pública de
músico. Usou boa parte do seu tempo expondo seu período de doença e isolamento
e anunciando a pré-veda de seu maior projeto, finalizado durante seu período em
que esteve longe do público.
A comoção
era notável. Sua esposa, atrás das curtinas, estava muito diferente do que
costumava ser, tinha o cabelo liso, preto, sem os óculos e estava emagrendo. Havia
passado por um cirurgião gastroplastico na semana seguinte a aparição do show
de Miquele D'nev. Antes de ver o discurso terminado, saiu e foi comprar algo
especial para celebrar aquele momento e desta vez não precisou de disfarce. Dirigiu-se
a uma cafeteria próxima ao auditório para comprar grãos de café com chantili, o
preferido de Linus, aproveitou e pediu uma bebida, acompanhando o marido pela
tela de projeção ía acender um cigarro quando encarou seu reflexo no espelho. Próxima
a ela, havia um casal de jovens com roupas descoladas que reclamavam em voz
alta, irritados, ela não deu atenção até ouvir o nome do seu marido:
- Linus
blá-blá-blá! Que idiota! - Dizia o jovem de cabelo verdes arrepiados.
- É...
Também odeio esses draminhas fabricados. - Acrescentou a jovem também de
cabelos esquisitos porém laranjas.
- Você sabe
que isso é uma grande fraude né? - Voltou a falar o jovem de cabelos verdes.
- É uma
grande patifaria, não sei por que não prendem esses otários.
- Não não,
você não entendeu. No final de semana vão exibir um vídeo naquele programa de
denúncias anônimas desmascarando o babaca.
Ao ouvir
aquilo, sua espinha havia congelado. Amaçou o cigarro e foi em direção em mesa
dos jovem, pegou o de cabelo verde pelo colarinho e ralhou-o:
- Não tem
nada de falso nisso! É tudo pura verdade! - Fechou a boca puxando o mais
profundo da saliva empapada na gargante e cuspiu no copo de refrigerante do
garoto, desta vez não retiniu.
No caminho
de volta, dentro do carro, estava nervosa e inquieta. Abria e fechava as mão
incontrolavelmnte.
- Amor, o
que achou? - Dizia Linus com um ar aliviado.
- Bom... Excelente!
- respondeu ela laconicamente - Todos te ouviram não?
- Sim,
sabem que será um grande lançamento! As editoras estão alvoroçadas com o livro!
Vários agentes quiseram saber das próximas publicações. Acredito que estou
conseguindo o que queria, sabe?
- Sei, sim,
sei que está conseguindo mas se não agirmos rápido, tudo será colocado abaixo.
Ele ficou
em silêncio. Chegando próximo a seu apartamento comentou: - Querida, posso
dizer uma coisa? - Ela não disse nada. - Percebi que está mudada ultimamente,
até sua voz mudou. - Deu início a um monólogo. - Não falei mas sabe, todos
estes anos, trabalhando pela sobrevivência apenas ví que hoje sou prestigiado,
as coisas realmente mudaram, incluindo você... Está perfumada, não cospe mais
pela sala e tampouco está fumando, não sei o que fez mas está magra, sinto-me
até sem jeito as vezes, olho para o lado e vejo outra pessoa - Ela permanecia
em silêncio. - Sabe, preciso ser extremamente sincero, após hoje, sinto que não
quero mais morrer. Sinto que fiz algo por nós, pela orquestra, pelos músicos,
aquela sua aparição de Michele D'nev... Enfim... tudo está relacionado.
Ela o
olhava pelo canto dos olhos sem falar nada, mantendo a inquietação.
- Linus,
vamos para casa. - Completou ela ignorando a emoção do marido.
- O quê? -
Dizia ele ainda embriagado pelo momento. - Quero comemorar meu bem!
- Não há o
que comemorar agora Linus. Estão nos filmando. - Disse séria.
- Isto não
é ótimo? - Abriu a janela e começou a dar tchauzinhos a esmo.
Em um
ímpeto, ela o empurrou para dentro, foi a primeira vez que Linus se sentiu
verdadeiramente ultrajado pela mulher, ela jamais havia tido atitudes tão
agressivas, olhou seu rosto pelo retrovisor, a alegria não andava começa a se
deteriorar.
- Amor,
reparou que as janelas estão mais escuras? Parece que colocaram um filme em
nossas janelas. - Ela não o ouviu, irrompeu irritada.
- Ah!
Jornalistas do inferno!
- O que foi
meu bem? - Disse Linus.
- Aqui
está! - Jogou o tablet em sua frente com a manchete principal estampada: Linus
Invictus, a nova celebridade farçante! - Era uma descrição completa de todo
plano arquitetado por ele e sua esposa.
- Ora!
Como? - Dizia ele não entender.
- Linus,
você não viu isso também. - Mostrou em um clique o programa que foi ao ar onde
haviam filmado suas semanas de reclusão e suposta doença onde bebia, ria e
caminhava nú.
- Ora, ora,
ora! Quem fez isso meu amor?
Ela se
dirigiu a ele como se medisse dois metros de altura, estava sensual, alta,
magra, de saltos e imponente. - Você fez isso seu monte de merda! - Agarrou-o
pelo pescoço e lançou pela porta, Linus se desiquilibrou e saiu em direção as
escadas, não viu o cachorro no primeiro degrau, pisou em seu rabo que
revidou-lhe uma mordida e o fez rolar escada abaixo.
Estatelado
no chão, se contorcia enquanto ouvia a esposa falar ao telefone, não conseguia
identificar com quem ela brigava, talvez o advogado, um jornalista, não sabia
ao certo, ouviu os passos de sua mulher descendo a escada.
- É isso
que você queria? - Chutou nas costas.
Linus,
chorava, gemia e em sua cabeça nada daquilo fazia sentido.
O telefone
tocou novamente, sua esposa atendeu, começou a chorar e segiu para a porta como
se esperasse alguém, eram os enfermeiros seguidos de dois homens que filmaram
toda a situação.
Ela o viu
ser amarrado a uma maca, imobilizado, sob sons de soluços e lágrimas que
derramava em frente as câmeras, ele foi levado.
As vendas
de "Linus: ascenção, decadência e iluminação" estavam em alta,
batendo o recorde de permanência em primeiro lugar na categoria de 1o livro de
não ficção mais incrível. A esposa de Linus, cuidou que ele permanecesse em coma
por vários meses a fio a fim de refutar todo o embuste e dizer que o seu quadro
era de recaída, desta vez com câmeras em seu quarto 24 horas, exceto quando os
médicos vinham lhe ver.
Convidada
novamete ao programa de Michele D'nev pode mostrar a nova casa e decoração que
havia adquirido, agradeceu aos patrocinadores, falou dos escritos deixado pelo
marido e como tudo aquilo era aterrorizante, não se via sem o marido e sua
música para as pessoa principalmente da ala 9. Não pode deixar de ser notícia
novamente quando no camarim de Michele D'nev foi pega com meninos na banheira. Fato
que negou horas depois dizendo ser armação de paparazzis.
No dia que
Linus saiu do coma, estava em uma sala requintada, sem janelas mas bem
iluminada por luzes naturais, havia uma mesa, cadeira confortável, computador,
papéis, tudo o que necessitava para escrever, chamou pela mulher.
Ela entrou
no quarto serenamente.
- Amor, conseguimos?
- Perguntou ele afônico.
- Sim meu
amor, conseguimos.
- Então,
agora eu posso voltar a escrever?
- Sim pode,
aqui será seu lugar até o fim de sua vida.
- Oh, não
poderei mais sair?
- Não... -
Lamentou ela com lágrimas nos olhos.
- Então,
fui dado como morto oficialmente?
- Sim...
foi. - Dizia ela em soluços.
- Eu te
amo. - Disse ele.
- Também te
amo Linus. - Chorou borrando a maquiagem. - Sempre te amarei mas você sabe o
que precisa fazer.
- Escrever amor, escrever...











